domingo, 18 de março de 2012

O triste e amantíssimo Poeta



Digno de todo louvor é esse trabalho que o poeta Eucanaã Ferraz fez para recuperar e reunir em livro uma série de poemas do Vinicius de Moraes. Sob o título de Poemas Esparsos, o volume abriga textos pescados em livros, revistas, jornais, manuscritos, gravações. Há uma arqueologia de cotejos de versões, comparando até com as diferenças entre os textos lidos em shows, buscando a última versão para apresentar ao leitor. Eucanaã já havia lançado antes, também pela Cia das Letras, a Nova Antologia Poética do Vinicius, organizada em conjunto com o poeta Antonio Cícero. Os dois revisaram os critérios da antologia organizada pelo próprio poetinha, propondo uma nova leitura da sua produção.
Estão aqui, na minha mesa da escrivaninha, ao lado do teclado e da tela do computador, as duas obras citadas acima e mais o Livro dos Sonetos e o Livro de Letras. Vinicius é sabidamente um dos melhores letristas da nossa música. Letra de música é aquele texto que é parte da música - talvez por isso tenha esse nome -, ou seja, que se completa e interage com os outros elementos musicais, melodia (criada para ser cantada), acordes, ritmo, timbres, entonação, arranjo, interpretação, pulso, ataque. Num samba-jazz em parceria com Tom Jobim, Só Danço Samba, a letra desliza junto com a melodia: “Só danço samba/só danço samba/vai, vai, vai,vai, vaiiiii/só danço samba/só danço samba/vai//Já dancei o twist até demais/mas não sei/me cansei/do calipso ao chá-chá-chá// Só danço samba...”. Ô, psit: se você leu a letra sem cantar, volte e leia cantando. Ela foi criada para a música.
Agora, cantando com Vinicius e Baden Powell: “O homem que diz “dou” não dá/Porque quem dá mesmo não diz/O homem que diz “vou” não vai/Porque quando foi já não quis/O homem que diz “sou” não é/Porque quem é mesmo é “não sou”/O homem que diz “estou” não está/Porque ninguém está quando quer/Coitado do homem que cai/No canto de Ossanha, traidor/Coitado do homem que vai/Atrás de mandinga de amor...” Aqui, aperto o pause. Parápa Parápa Papá: esse é o esquema métrico-melódico dessa primeira parte. Cada conjunto de sentido tem que caber nele. E Vinicius/Baden vão alternando camonianamente jogos de antíteses em cada partezinha. O resultado é quase zen budista, aquela luta entre o eu e o não-eu.
Ou nessa melodia doce, quase uma cantiga de ninar, composta com Toquinho, de repente uma estrofe tragicômica: “Acordo de manhã, pão sem manteiga/ e muito, muito sangue no jornal/Aí a criançada toda chega/e eu chego a achar Herodes natural...”.
Fazer embaixadas dentro da métrica, como o craque que acha um drible num espaço apertado do campo, é especialidade do Vinicius. Assim é na sua produção de sonetos: “Apavorado acordo, em treva. O luar/É como o espectro do meu sonho em mim/E sem destino, e louco, sou o mar/Patético, sonâmbulo e sem fim//Desço na noite, envolto em sono; e os braços/Como ímãs, atraio o firmamento/Enquanto os bruxos, velhos e devassos/Assoviam de mim na voz do vento.//Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe/Sem dimensão e sem razão me leva/Para o silêncio onde o Silêncio dorme//Enorme. E como o mar dentro da treva/Num constante arremesso largo e aflito/Eu me espedaço em vão contra o infinito.”.
Até aqui é o Vinicius mais conhecido, o das letras e o dos sonetos. E talvez sua imagem de poeta para a maioria das pessoas esteja nessa produção. Mas relendo os textos da Nova Antologia Poética e, sobretudo, esses reunidos no Poemas Esparsos, reencontramos e encontramos um poeta que realizou como poucos o que pregava Manuel Bandeira na Poética: “todos os ritmos, sobretudo, os inumeráveis”. Ver, por exemplo, o poema Sob o Trópico de Câncer, até então inédito em livro. É um show de ritmos, de versos longos e curtos, estrofe com diálogos, estrofe com refrão, até terminar na espacialização com a palavra câncer repetida descendo na página. Não bastasse a força da realização formal, Vinicius tem uma coragem e uma contundência no dizer, no ir fundo no que se teme, no que dói, coisa que só os grandes autores da história da literatura conseguem, sejam eles poetas ou prosadores. Um trecho: “- Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que seu marido tem um câncer no fígado.../- Meu caro senhor, é triste ter de comunicar-lhe, mas sua esposa é portadora de um câncer no útero.../.../É a dura realidade, meu amigo, sua mãe.../-Seu pai é um homem forte, vai agüentar bem a operação....” .
Em outro poema, Balanço do Filho Morto, com um requinte de imagens, descrições, narrações, criação de atmosfera, fôlego de três páginas, o poeta toca com crueldade e compaixão talvez na mais dolorosa das perdas. A morte é um tema recorrente e até dominante na sua produção de poemas. Pode-se dizer que ele foi tão intenso na percepção da vida quanto na da morte. Desse impasse, quase curto-circuito, vem o amor, a mulher, para encontrar uma saída, uma leveza.
Mas talvez a leveza mesmo ele tenha encontrado na composição musical. A palavra voando, soando, dividida como pão entre os parceiros e a platéia devem ter dado a esse homem um equilíbrio novo. Seu texto, embora não deixe de ser contundente nas letras, ganha mais alegria, mais humor (nos seus poemas também há o riso, mas em bem menor escala). Num poema quase carta, quase crônica, de 1974, A Casa, encontramos um Vinicius com toda a maestria do texto longo, dos versos que se espraiam, das imagens, temperado por um coloquialismo e por um estar à vontade no mundo semelhante ao que temos em suas canções. Mas, como nas letras, ciente de que “Tristeza não tem fim/Felicidade sim”. É o relato para Gesse, sua esposa, da construção da casa em Itapuã, “uma casa feita/de canções cantadas por todo o Brasil (com abatimento para estudantes)”.  Uma casa para “ficar pensando/Que atrás de cada aurora se esconde/A face ansiosa da Vida e de cada crepúsculo/ A máscara irônica da Morte, ambas à espreita/ Ambas querendo cumprir a qualquer custo/Os seus fatais desígnios. E depois desses tolos pensamentos/ E de induzir o sono em velhos filmes de televisão, ir deitar-me/ Com o sentimento da fragilidade, da precariedade/ Da inutilidade de tudo... até que uma nova manhã/ Me diga: Não! E então retomar o cotidiano...”. E, no final, depois de cinco páginas: “É tua casa, simples e concreta/ Tua, só tua, imensamente tua/ Para que nela vivas sempre nua/ Com teu céu, com teu mar, com tua lua/ E o teu triste e amantíssimo Poeta.”. Como se vê, ele mesmo grafou poeta com P maiúsculo.


Ricardo Silvestrin
publicado originalmente no site Musa Rara



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Para rir, com Drummond



A TORRE SEM DEGRAUS 
Carlos Drummond de Andrade

No térreo se arrastam possuidores de coisas recoisificadas.
No 1° andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato.
No 2° andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos.
No 3° andar - tlás tlás – a noite cria morcegos.
No 4°, no 7.°, vivem amorosos sem amor, desamorando.
No 5°, alguém semeou de pregos dentes de feras cacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848.
No 6°, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso.
No 8°, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika.
No 9°, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível.
No 10°, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisóprasos na terrina.
No 11°, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades.
No 12°, o aquário de peixes fosforecentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença.
Atenção, 13°. Do 24° baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário.
No 14°, mora um voluntário degolado de todas as guerras em perspectiva, disposto a matar e a morrer em cinco continentes.
No 15°, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa.
No 16°, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças.
No 17°, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos.
Não se sabe o que aconteceu ao 18°, suprimido da Torre.
No 19° profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico.
No 20°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais.
No 22°, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas.
No 23°, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biograifa e auréola.
No 24°, vide 13°.
No 25°, que fazes tu, morcego do 3°? que fazes tu, miss adormecida na passarela?
No 26°, nossas sombras despregadas dos corpos passseiam devagar, cumprimentando-se.
O 27° é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira.
Do 28° saem boatos de revolução e cruzam com outros de contra-revolução. I
Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29° foi declarado inabitável.
Excesso de lotação no 30°: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras.
No 31°, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas.
No 32°, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima.
No 33°, um homem pede pra ser crucificado e não lhe prestam atenção.
No 34°, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio.
No 35°, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas.
Um mosquito é, no 36°, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões.
No 37°, a canção
Fiorela amarlina
louliseno i flanura
meleglírio omoldana
plunigiário olanin. 
No 38°, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações.
No 39°, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo.
No 40°, só há uma porta uma porta uma porta. Que se abre para o 41°, deixando passar esqueletos algemados e coduzidos por fiscais do Imposto de Consciência.
No 42°, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias, e ninfetas executam bailados quentes.
No 43°, no 44°, no... continua indefinidamente).

Este poema em prosa está no livro A falta que ama, que Drummond lançou em 1968, junto com o livro Boitempo. Todo o sentimento do absurdo do mundo que permeia a poesia de Drummond aqui se mostra às claras. E também o humor que aparece em vários dos seus poemas desde o primeiro livro, Alguma Poesia, nessa Torre sem Degraus se coloca sem ficar entrevisto pela ironia ou mesmo pelo humour - nome em inglês que se usou para caracterizar o refinamento do humor drumondiano. Aqui, tem passagens de rolar de rir, como esta: "No 20°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais.". Suba e desça nessa torre sem fim.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Esse Leminski!

O ensaio abaixo foi publicado na primeira edição do jornal Cândido, nova publicação da Biblioteca Pública do Paraná, que saiu agora, em agosto de 2011. Para comemorar o lançamento, o jornal abre com uma homenagem ao Paulo Leminski. Tive a honra de receber o convite para falar sobre a importância desse poeta na poesia brasileira.  
            
                Paulo Leminski era um poeta tão novo que nem teve tempo de envelhecer. Morreu aos 44 anos. Como os mitos da contracultura, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, vai ser eternamente jovem. Sua poesia faz uma curva rápida, que vai quase que em linha reta, da celebração da vida, da arte, da alegria, até a surpresa frente à morte, à dor. E desses últimos temas, ele trata ainda com a mesma vivacidade, a mesma ironia, sem se deixar abater nas suas últimas forças de homem jovem.
                É impossível saber se a sua poesia, com Leminski seguindo vivo, iria trazer as perdas da idade, da passagem do tempo, ou ele desviaria sua atenção para as questões da arte, da expressão, da busca pelo novo. Um homem velho e, antes de tudo, inventivo, como um Haroldo de Campos. Ou um lírico tentando decifrar a vida, a velhice, o sentido de tudo, como um Drummond.
Mas vida não tem se. O que temos é esse poeta e sua poesia criada num tempo definido. Nessa trajetória breve, o que ele concluiu da vida pode estar expresso nesse poema também breve, que está no final do último livro que preparava, La vie em close: “vida e morte/amor e dúvida/dor e sorte//quem for louco/que volte”. O humor equilibra o trágico, pelo menos no tom do discurso. O poema fica zero a zero, para citar o próprio poeta, que escreveu “poema que é bom acaba zero a zero”. Ou seja, o texto não vai cair para a depressão e muito menos para a euforia. No entanto, o tom leve revela uma conclusão amarga. Os opostos não são vistos como complementos, mas como tensão insuportável. Uma vida é o bastante para passar por isso tudo. Nada de reencarnação.
É claro que um poema como esse, isolado, também pode ser visto apenas como um estado de alma. Em determinados momentos, a tensão é tanta que não vemos sentido na vida. Em outros, queremos que a existência siga infinita: “essa vida é uma viagem/pena eu estar/só de passagem” – escreveu o poeta no mesmo livro.
Ninguém vira mito sem suar a camiseta. Presenteado pelas musas com uma grande capacidade de trazer à tona insights singulares, com uma grande veia comunicativa, Leminski não achou que o jogo, em virtude desses atributos, estivesse ganho. Sua produção é o resultado e o diálogo com todos os problemas estéticos e expressivos que a história da poesia depositou em suas mãos, como quem diz para o poeta: sai dessa!
De fato, escrever poemas interessantes no Brasil, depois da poesia concreta, de Cabral, de Drummond, de Oswald, para citar apenas os que Leminski mais admirava, é uma tarefa dura. Escrever depois de grandes momentos de reflexão, de ampliação do discurso teórico sobre a linguagem, a arte, a poesia, marcas do século XX, também. Produzir em meio à cultura de massa, à crise das ideologias, à ascensão da música popular num país menos letrado e com “ouvido musical”, como cantou Caetano, tudo isso estava no caldeirão do nosso bardo paranaense.
Na esteira de Ezra Pound e dos poetas concretos, Leminski amplia seu repertório, e o nosso, seus leitores, dos gregos aos japoneses. Formula arte-pensamento, ensina, socializa conhecimento, milita, devolvendo tudo em poemas, ensaios, prosa, fala, cursos, oficinas, canções.  Do seu lado professor de história, até Jesus é revisto.
Essa sua capacidade de doação fez com que toda uma geração parasse para ouvir, ler, curtir a sua luminosa presença.  Mais do que chamar a atenção para si mesmo, a atuação dele apontou para várias direções e descobertas.
Se fizermos uma tomada aérea, movimento de Google Earth, mas não no sentido espacial e sim temporal, vamos ver em que bronca estética sua poesia estava metida. O verso, unidade de imitação dos conjuntos da fala, sim falamos em pedaços, como os versos, e não como a frase – apenas quem fala como a frase é locutor de futebol no rádio – era, lá na Grécia antiga, algo feito para o ouvido. As métricas, ou seja, o tamanho de cada verso, tinham uma função:  era recomendável x número de sílabas se o verso seria entoado, outro número se estivesse nas falas de um diálogo, outro se fosse na parte da peça que teria dança... O verso é anterior à frase. Essa unidade sonora, na qual eram construídas as peças de teatro e os textos entoados ao som da lira, não tinha vindo ao mundo para ser lida. O verso era apresentado, consumido pelo ouvido. Os copistas apenas registravam esses textos para que não se perdessem. As bibliotecas, onde os tesouros ficavam guardados, eram raras. Com a invenção da imprensa, só lá no século XV a poesia começa a ser tanto consumida quanto criada para o papel.
Essa mudança traz questões novas para a recepção e para a produção do poema. Os valores sonoros como métrica, rima e outros passam a conviver com valores espaciais e visuais. Quem estava contando sílaba de repente deve ter olhado para a folha e visto que quebrar o verso no espaço, mesmo que não fosse a hora pela métrica, poderia trazer um novo efeito expressivo. Mais, olhando as letras, a mancha, um novo mundo criativo se descortinava. O poema começava a passar de apenas jogos de sentido e som para jogos de sentido, som, espaço e desenho. O leitor lá pelas tantas também começa a se perguntar por que mesmo esse poeta está cantando para os ouvidos se são os olhos que estão vendo.
Cada língua e cada história literária do ocidente construíram, e continuam construindo,  sua nova poesia no embate criativo com essas questões. Quando dizemos verso livre, estamos dizendo livre da métrica, mas não livre da tarefa de criar uma estrutura no espaço. Durante a primeira metade do século XX, um conjunto de excelentes poetas brasileiros chegou a resultados consistentes usando tanto as surpresas de significado, como de som e de espaço/desenho. Temos a consolidação de um verso livre com Drummond, Bandeira, Quintana, Cabral, entre outros, e a criação de uma nova poesia, mais visual, com Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campo e diversos poetas que aderiram à proposta concreta. E, na sequência,  ainda outras vertentes, como a poesia neoconcreta, o poema processo, além dos neosurrealistas/beatnicks, da arte engajada politicamente e da arte da nova canção popular brasileira.
A questão que se impunha para Leminski foi a que ele mesmo expressou em carta para Régis Bonvicino. Num episódio que nomeou como transmissão da lâmpada, Leminski relata que Décio Pignatari disse a ele que o concretismo tinha que acabar. E só quem poderia fazer isso eram os novo poetas, como Paulo. Da reflexão sobre como dar conta do pedido, Leminski decide permitir que passem a entrar no seu verso elementos que eram dele e da geração dele, como a contracultura e o trotskismo. A partir disso, cria o seu verso, que não era mais a poesia concreta, embora nascido dela, nem o verso modernista.
O que tem da poesia concreta no verso de Leminski é o fato do jogo de linguagem, do gesto com a palavra estar à mostra - ele vem para o primeiro plano. Do verso modernista, o discurso, ou seja, falar sobre alguma coisa (diferente do poema concreto que, em vez de falar sobre, a forma concretiza o conteúdo, vemos o conteúdo/forma em vez de lermos sobre ele)  e a liberdade de dizer num verso livre – na poesia moderna, como já se disse, cada poema cria a sua arte poética.
                Mas isso não é tudo. Os impasses poéticos antes da produção de Leminski poderiam ser agrupados assim: discurso x não-discurso – questão da poesia concreta; livre x métrica/rima/formas fixas - questão dos modernistas; projeto anterior x descoberta criativa – questão neoconcreta e processo; racionalismo x inconsciente e piração – questão dos neosurrealistas/beatnicks; falar da realidade brasileira com uma leitura de esquerda – questão dos engajados; retomar a linha evolutiva da música popular brasileira – questão tropicalista.
                Da experiência concretista - o olhar atento sobre a palavra, e da experiência do haicai, Leminski colhe elementos formais para criar um novo discurso. São palavras precisas. Não há nada sobrando. Faz um discurso não-discursivo. 
                Do conhecimento diversificado e aprofundado do som, das possibilidades sonoras da palavra, vai além da ideia de rima, trazendo anagramas, ecos, aliterações. Faz um verso não metrificado, mas cheio de ritmo, de melodia e muito sonoro.  Classificações como de rica rima e pobre se esfarelam, pois a concisão, a precisão, a contemporaneidade, a inteligência do insight, tudo isso faz saltar a ideia com seu som na nossa cara: “confira/tudo que respira/conspira”. São três verbos, mas quem vai se lembrar de pensar se são rimas ricas ou pobres? O discurso é novo e os problemas estéticos que propõe também se apresentam como novos. Formas fixas ficaram para trás? Leminski revalida o haicai, mas dentro de um espírito moderno. Interessa menos contar sílaba do que buscar o poema breve que capte o aqui e agora.
Sua poesia não postula um conjunto de preceitos. Não há um manifesto, uma plataforma anterior. Vai se realizando a cada poema. Mas, nem por isso, deixa de revelar as escolhas do poeta como estamos colocando aqui.
Leminski não parecia acreditar que a irracionalidade deveria vir à tona e fazer o poema. Mas também sabia que, mesmo tendo a consciência da linguagem, o insight, o acaso eram e serão sempre dados do tabuleiro: “depois de muito meditar/resolvi editar/tudo o que o coração/me ditar”. É claro que há uma ironia, uma brincadeira com meditar e me ditar, que, talvez por ela mesma, até contra o que ele pensasse, valeram a existência do poema - tipo, perco o amigo, mas não perco a piada. Mas há uma ideia de inspiração contida aí. E um jogo dúbio na palavra editar - que percebo só agora. Pode-se editar, publicar, tudo o que o coração mandar. Ou editar, cortar, reordenar. Esse Leminski!
Quanto ao engajamento, ele era de esquerda, trotskista.  Cita o seu escolhido entre os socialistas em alguns poemas. Contudo, não deixa de passar uma rasteira nos maniqueísmos tanto do pensamento de esquerda quanto da arte engajada: “podem ficar com a realidade/esse baixo astral/em que tudo entra pelo cano/eu quero viver de verdade/eu fico com o cinema americano”.
                O verso sonoro que cria desliza também nas melodias tanto compostas por ele, como, por exemplo, em Verdura, quanto em parcerias com outros músicos. Reata, como fez Vinícius,  as pontas com o verso grego – o poema, agora letra, não apenas lido, mas ouvido, além de dialogar com o presente e com a qualidade dos compositores inventivos brasileiros.
                Como se vê, Leminski foi um poeta que viveu profunda e ativamente as questões do seu breve tempo. Sua passagem de cometa ajudou a trazer respostas novas, que superam impasses e propõem outros. É desses que empurram seu tempo para frente. Não teve tempo de envelhecer. Mas, depois da sua poesia, muitas discussões ficaram velhas.

(texto de Ricardo Silvestrin, publicado no jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, em agosto de 2011)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Série Diálogos: Ricardo Silvestrin e Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo é poeta,  compositor, cantor, performador, ensaísta, artista visual e sonoro.  Publicou os livros “Festim” (1992), “A roda do mundo” (1996 e 2004, com Edimilson de Almeida Pereira), “Quem faz o quê? (1999), “Trívio” (2001), “A aranha Ariadne” (2003), “Máquina zero” (2004), “Céu inteiro” (2008) e “Modelos vivos” (2010).
Silvestrin:
Aleixo, "boca também toca tambor"?

Aleixo:
E como toca! A boca é um instrumento musical/sonoro fabuloso. Mesmo com todas as engenhocas eletrônico-digitais à nossa disposição, ainda temos muito o que explorar em termos do que quer e do que pode o mais nobre dos orifícios humanos. A propósito, que tipo de boca você gosta mais?

Silvestrin:
Então. Vi tua apresentação em São Paulo, na Casa das Rosas, naquele evento de lançamento do livro O que é poesia?, organizado pelo Édson Cruz. Pra quem não viu, esse verso teu “boca também toca tambor” era dito por ti, e toda a percussão que contém essa fala soava nos nossos ouvidos. Tua fala explorava melodias intrínsecas à prosódia. Foi muito legal. Existe, claro, esse espaço entre fazer música com melodia construída pra ser cantada e uma outra arte, não mais fala, mas ainda não canto. Já fiz, recitando solo, algumas coisas por aí.  Gosto de fazer. Tive dois momentos de grande abertura de consciência do som. Num, percebi a melodia da fala, a melodia da música e foi como se meus ouvidos tivessem ficado enormes. E um segundo momento de cantar muito todas as curvas e sons de uma música, ouvindo arranjos e todas as vozes/instrumentos, cantando com todos os timbres. Esse plano sonoro é muito bom de entrar nele. A boca é parte do jogo. Tua arte tem sempre uma clara noção do gesto estético. Percebe-se que sempre estás explorando um projeto artístico, não apenas dizendo algo. O que vem antes para ti? O projeto ou o descobres no fazer?

Aleixo:
O projeto, para mim, é um componente indispensável do processo. Mesmo que eu o desconsidere parcial ou totalmente no decorrer da performance, em favor de novas possibilidades que se apresentam naquele "aqui e agora" irrepetível. Costumo falar em roteiro de errâncias, a respeito do que faço em performance. Projeto formas de, às vezes literalmente, me perder em cena. E quanto a você, no trabalho com os (impagáveis) PoETs, como faz? Você já trabalhava com música antes de formarem o grupo? Se sim, que tipo de música era essa?

Silvestrin:
Sim, participei de duas bandas antes: OS 3 POETAS e OS LADINOS. Na primeira, a proposta é parecida com a dos poETs.  Éramos eu, o Alexandre Brito e o Ricardo Portugal. Também fizemos um repertório de músicas, vários shows, tocamos nas rádios locais. Mas não lançamos cd (diferente dos poETs em que já lançamos dois).  Na segunda, eu era vocalista e compositor. Era mais rock. Nos três trabalhos, são bandas, música e letra. E performance de palco, roteiro, ensaio. Temos o show só com os três – dois violões e três vozes – e também com mais três músico - bateria, baixo e guitarra. No acústico ou no elétrico, ensaio-ensaio-ensaio, arranjos de voz, arranjos das músicas. O que vamos achando no caminho são nuances de interpretação vocal, de acordes de vozes, de arranjos de banda. Também trabalhamos bastante a sequência das músicas no show. A brincadeira do Ronald Augusto é que um dia vamos lançar os Roteiros Completos dos poETs. Mas esse roteiro de errâncias de que falas se aplica também à criação da tua poesia escrita?



Aleixo:
Nem sempre. Na escrita sou quase um alemão, de tão rigoroso que sou. Rs. Poderia dizer japonês, fazendo menção à disciplina zen, mas quero dizer alemão mesmo. Me lembro de poucos poemas que foram publicados sem passarem por, pelo menos, umas dez versões diferentes. Te devolvo a pergunta, com o fim de saber como você procede quando escreve algo abertamente cantável, como é o caso - escolho meio a esmo - daquele poema que começa com o verso "há uma cidade por dentro"? Rola um dilema entre definir aquilo como letra de música ou poema para ser publicado em livro?

Silvestrin:
Não. Tudo pode ser cantável. É só botar uma melodia em cima. Escrevo poemas diferentes, de um verso, de vários, com espaçamentos, uma letra por página, e também com o som da palavra, o ritmo do poema, o ritmo da fala,  a melodia da fala, ou só o corte no papel.  Então, não confundo a melodia do texto, melodia de fala, com melodia de música. Isso é outra arte. Quando componho músicas, tanto sozinho quando com os poETs, faço sempre uma melodia de canto. É uma melodia artificial. Não é a do texto. Poderia comportar diferentes textos até. Isso pode ser criado junto com a letra (quando crio sozinho faço muitas vezes assim). E mesmo com meu violão, já fiz como fazemos nos poETs: criamos primeiro a sequência de acordes, depois a melodia e por último a letra. É por isso que nossas músicas são músicas, boas de cantar. Não são poemas musicados ou transformados para letra. São letras mesmo, criadas para a música. Desse modo, não tenho dilema de escolha. Um poema pode usar do som das palavras, do ritmo e sempre aparece alguém dizendo: oh, isso daria uma letra. E eu me benzo e penso: tomara que eu não precise dizer para não musicar. Porque, via de regra, fica uma música sem graça. O texto foi criado para ser lido. E poucas pessoas sabem compor uma boa melodia. E ainda que componham, vão acabar mexendo no poema, criando repetições, refrões, uma continuação e tudo que não era pra fazer com um poema que nasceu para ser poema. Não vejo como um status: ah, tal cara importante musicou. Quando surge um músico interessado, digo: queres que eu escreva uma letra pra ti? Então, mesmo que não haja ainda uma melodia, escrevo um texto/letra: com estrofes mais regulares, com repetições, com refrão, com uma variação que permite uma segunda ou terceira parte. Faço um texto cantável de verdade. Um texto que daria uma boa música, preparado para isso. É esse papo que hoje fica melhor definido como canção, embora, para mim, chamar de canção soa meio Agnaldo Rayol. Com essa voz linda que tens, não estás preparando um trabalho musical, de canção?

Aleixo:
Minha relação com a arte começou pela música. Melhor dizendo, pelo canto: dos 11 aos 14 anos fiz parte de um coral no colégio em que estudava. Gostava muito de cantar, mas não
considerava a hipótese de vir, mais à frente, a desenvolver aquela aptidão. Por volta dos 16, descobri um outro talento: fazer imitações. Já no segundo grau, em outro colégio, eu divertia a turma com minhas imitações de cantores como Alceu Valença, Belchior, Zé Ramalho, Raul Seixas e outros. Até que descobri Milton Nascimento, e a coisa passoua  ter outro sentido. Eu passava dias inteiros ouvindo Milton: o disco Minas, de 1976, que ganhei de minha mãe ao completar 18 anos, em 1978, eu ouvi vezes sem conta. Conheço cada nota, cada compasso, cada palavra daquele disco. Quando dei por mim, lá estava eu fazendo minhas primeiras canções. Curiosamente, essas canções surgiram na mesma época em que fi meus primeiros poemas, mas eram - canções e poemas - como água e óleo, na minha cabeça: coisas completamente diferentes. Já "homem feito", ali pelos 35 anos, foi que ousei fundir as duas coisas, e fiz um espetáculo no qual misturava canções e poemas. De certo modo, esse formato se manteve até bem recentemente, mas as vocalizações de poemas (com o uso
de técnicas de expanded voice) passaram a predominar. Já há coisa de uns 6 ou 7 anos voltei a compor canções, com o objetivo de montar o repertório para um CD. Somando as parcerias com músicos como Zeca Baleiro, Gil Amancio, Gilvan de Oliveira, Juarez Maciel e outros aos temas que compus sozinho, ao violão, já são mais de 50 músicas compostas. Eventualmente, canto uma ou outra nas minhas performances, um pouco para testá-las junto ao público, um pouco porque elas praticamente impõem sua presença no roteiro. Se os deuses forem propícios, daqui a, no máximo, dois anos, solto meu primeiro CD de canções. Mas me diga: como você analisa o espaço para o tipo de trabalho que você faz, aí em Por to Alegre, em comparação com o que se passa em outros centros? Me conte, também, por favor, sobre a receptividade ao seu trabalho (tanto o poético quanto o musical) fora do Rio Grande do Sul.

Silvestrin:
Legal a tua trajetória musical. E logo vi que tinhas estudado canto. O Alexandre Brito, dos poETs, também cantou em coral. Isso dá uma qualidade muito boa ao canto dele. E ao teu também. Mas uma coisa que vem antes da técnica é o timbre. Ou seja, a voz natural de cada um. É como o rosto. Uns nascem mais bonitos. É questão de sorte. E tanto a tua voz como a do Alexandre são muito bonitas. Depois, com a colocação, o ar, o ouvido, tudo pode soar melhor. Aguardemos então com uma alegre expectativa teu cd! Acho que posso dividir por décadas a repercussão do meu trabalho. Na década de oitenta, fizemos várias coisas que marcaram por aqui: a Coolírica, a Roda de Poesia, lancei os livros Viagem do Olhos, Bashô um santo em mim e o infantil de poesia O Baú do Gogó (dez mil exemplares vendidos). Tudo isso repercutiu em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, mas fui premiado em São Paulo no Encontro Brasileiro de Haicai (meus leitores fora do RS nesse período eram muito os haicaístas). Conheci também a Alice Ruiz e o Paulo Leminski, que gostaram bastante da minha poesia. Nos anos noventa, fizemos, eu e o Alexandre Brito, a coleção de poesia Petit Poa para a Coordenação do Livro da Prefeitura, criamos a banda Os três poetas, lancei os livros Quase eu e Palavra Mágica (IEL/Massao Ohno), esse último foi Prêmio Açorianos, o infantil de poesia Pequenas observações sobre a vida em outros planetas – Prêmio Açorianos e hoje já com vinte mil exemplares vendidos - também fiz a banda Os Ladinos.  Músicas nas rádios locais, shows por aqui, leitores esparsos pelos Brasil, poetas, sobretudo. Entrevistei o Décio Pignatari e dei a ele o Palavra Mágica. Décio leu um dos poemas do livro abrindo uma conferência sua sobre James Joyce. Participei como poeta convidado do Porto Alegre em Buenos Aires. Apresentei o programa Todas as Letras, sobre letras de música, na rádio Pop Rock. Anos dois mil: criamos os poETs, lançando dois CDs, um por uma pequena gravadora de São Paulo, a YB – foi página do Estadão e recomendada no JB pelo Tárik de Souza, matéria do jornal da MTV, capa do segundo caderno da ZH; criamos a AMEOPOEMA editora, lançando quatorze livros de quatorze poetas – foi capa da Ilustrada da Folha de São Paulo e o resenhista destacou meu livro ex,Peri,mental - prêmio Açorianos de editora -; lancei infantis pela Ática, Salamandra e Cosca Naify; lancei o livro de poemas O Menos Vendido, pela Nankin de São Paulo – Prêmio Açorianos -, o livro de contos Play e o romance O videogame do rei, ambos pela Record; fui colunista da ZH por sete anos, fiz o Programa Transmissão de Pensamento por dois anos na rádio Ipanema FM – Prêmio Açorianos de mídia de literatura; shows em Manaus, Circo Voador, Sesc Pompéia, Barca Poética em Brasília, turnês de quinze cidades em Santa Catarina; mais leitores além dos poetas pelo Brasil, internet, mais poetas sabem que eu existo, mais participação em eventos literários fora do RS, destacando evento no Uruguai, mais circulação das nossas músicas em rádios menos comerciais, mais fãs internéticos e locais. É suado, mas é bom ir passo a passo, conquistando as coisas com trabalho. Tem muito ainda a repercutir mais o que faço e o que fazemos nos poETs, mas já estamos num ponto bem mais adiantado hoje. O que crio nunca é o esperado, nem o que rola fácil. Mas, pardoxalmente, é comunicativo, pelo menos aparentemente. Isso, creio, permite ir ampliando sempre público. Como vês essa questão da comunicabilidade na tua obra? Teus versos quebram em pontos que exigem ir buscar lá embaixo o fio da meada. Tua seleção de palavras exige, às vezes, um leitor com vocabulário coxudo. No entanto, tu tens, pelo menos à distância, bastante espaço como poeta no Brasil. Diz aí.

Aleixo:
Tenho mais espaço do que imaginava que viria a ter, quando comecei a escrever. Às vezes acho que esse espaço é menor do que o que eu poderia ter, caso vivesse numa cidade com mídia de alcance nacional, caso eu gostasse de vida literária, patotas curriolas, igrejinhas e tal, caso eu tivesse parentes importantes, caso isso, caso aquilo, sabe como? Mas não reclamo. Uma frase do Glauco Mattoso serve para explicar como me sinto: "Prefiro ser sapão de brejinho do que sapinho de brejão". Aos trancos e barrancos, criei um espaço que é só meu, mas que é totalmente aberto ao diálogo com artistas de outras áreas, com estudiosos de outros campos do conhecimento, com as pessoas ditas comuns e até com os poetas, veja você. Trabalho atualmente, entre outras coisas, na organização do meu acervo pessoal, o que tem me dado muito prazer e, ao mesmo tempo, a sensação de que não fiz outra coisa senão... tentar conquistar espaço. Mas, não: o que houve foi que, desde muito novo, lá no começo mesmo, entendi a opção pela poesia, pela arte, como um estilo de vida. E me joguei de cabeça nisso. E as coisas foram acontecendo. Os anos 90 representaram, para mim, o enfrentamento com um contexto artístico menos provinciano que o de Belo Horizonte. Foi quando comecei a publicar em jornais e revistas de outros estados, e até no exterior (na França e nos EUA). Foi também nesse período que eu comecei a participar da organização de eventos artístico-culturais, como o Festival de Arte Negra, a Bienal Internacional de Poesia, o seminário No País do Futebol e outros. E tinha, ainda, a coluna que mantive no jornal O Tempo entre 1996 e 2002, que me permitiu fazer muito barulho por aqui. Além da coluna fixa, eu fazia eventualmente entrevistas com poetas e artistas de outras áreas, como Augusto de Campos, Antonio Risério, Sebastião Uchoa Leite, Lígia Pape. Sempre entendi a entrevista como um trabalho - compartilhado - tão importante quanto um poema, um ensaio, um texto em prosa. Todos esses fatores ajudaram a fazer com que meu nome ficasse mais conhecido fora de Minas, embora a maioria das pessoas que tenta acompanhar o que faço afirme que não teve acesso a tudo o que publiquei, em termos de livros, ou que montei, no âmbito da performance ou dos trabalhos plástico-visuais. É uma luta diária, como você sabe bem, Ricardo. Mas uma luta boa de se travar, porque ela se dá num campo em que, se não posso desprezar ou alterar as regras existentes, posso pelo menos insistir para que elas sejam cumpridas - e isso, num país como o Brasil, já é muita coisa. Quanto a isso do "vocabulário coxudo", é e não é: reparando bem, você encontrará nos meus poemas, quase sempre, as palavras de todo dia, só que dispostas de uma forma que, aí sim, o leitor é obrigado a fazer a sua parte para poder tirar algum proveito. Você disse bem, ao falar das "quebras" de linha: fui um garoto cinéfilo, amo o cinema até hoje, e, como poeta, gosto demais de poder trabalhar com princípios como corte, montagem e outros. Isso e a ideia, apropriada do legado concreto, que me marcou muito, de exploração topológica da página, mais o uso consciente do ritmo e das alturas, creio que a comunicabilidade da minha poesia explica-se, de certo modo, por essa conjunção de fatores estéticos (sobre os extra-estéticos, não posso dizer nada...). Quero, agora, que me conte sobre seus planos como gestor cultural, agora à frente do Instituto Estadual do Livro. Como vê o papel da instituição? Quais serão, a seu ver, os principais desafios?

Silvestrin:
Sobre muita gente ainda não conhecer boa parte do que se publicou ou colocou em cartaz, uma vez a Olga Savary me pediu uns poemas, acho que uns haicais, para colocar numa antologia que ela estava organizando. Eu perguntei se teriam que ser inéditos ou poderiam já ter saído antes em livro. Ela me respondeu que tanto fazia porque todo poeta é inédito. Quanto ao Instituto Estadual do Livro, vamos trabalhar no acesso à leitura. Esse será o foco. Modernização das bibliotecas públicas (520), grupos de leitura para que a comunidade passe a perceber o acervo, circuito de autores em escolas, feiras e bibliotecas, formação de professores para qualificar o trabalho de leitura, oficinas com foco na formação literária, site-revista para colocar na roda em forma de resenhas e artigos o riquíssimo acervo dos planos de edições que foram feitos ao longo do tempo (são 600 publicações até agora), novo plano de edições para revelar novos autores, resgatar obras importantes, valorizar todos os gêneros, reformar a sede e fazer dela um ponto de encontro com a biblioteca especializada nos autores do RS, e, se conseguirmos, uma livraria com palco para shows e saraus e um café, fazer o Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura. E, pra encerrar este nosso agradável papo, li um texto lindo no teu blog jaguadarte. Falas que te defines como um compositor, não só de canções, poemas, mas de si mesmo, usando um diploma que recebeste quando eras pequeno, um diploma de honra ao mérito pela tua composição, uma redação. Teu blog está há bastante tempo no ar. É visto e apreciado por muitos poetas. Como tem sido esse trabalho e a tua relação com a internet?

Aleixo:
A internet marca um segundo momento do meu trabalho. Vindo de outra época, tive que aprender a lidar com o mundo novo que a web representa e apresenta a cada instante. E o desafio de aprender sempre me fascinou. Costumo dizer, quanto ao meu blog, o jaguadarte, que sou funcionário dele. Atualmente escrevo lá menos do que gostaria, mas gosto demais quando consigo postar com certa regularidade. Sempre há algum retorno: ou em forma de comentários, ou por emails que um ou outro me envia. Quero voltar a postar resenhas e entrevistas, tenho planos de fazer um audiocast, e por aí vai. Creio que até o final do primeiro semestre quem me acompanha pela internet terá grandes surpresas. Quanto à internet em geral, para além do blog, sou um grande entusiasta. Sem deixar que isso afete minha relação com o "mundo real" (vá lá saber o que é real!), vivo conectado - o que é fundamentel tanto para a realização e a difusão do meu trabalho quanto para a pesquisa, o estudo e o contato com amigos, colaboradores etc.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Série Diálogos: Ricardo Silvestrin e Alexandre Brito



Tenho a alegria de conviver há muitos anos com esse que é, disparado, um dos poetas que mais gosto de ler na poesia brasileira contemporânea. Alexandre Brito é autor de Visagens, Zeros, Metalíngua e Circo Mágico. Também é músico e tem uma voz que cai redondinha nos ouvidos da gente. Na foto, nós dois dizendo um texto na gravação para o projeto Cidade Poema.


Ricardo:

Tenho um livro teu lá em casa. É um do Augusto de Campos, acho que é O Anticrítico. Nas margens, tem um série de antoções tuas feitas à caneta. Parece ter sido um livro bem estudado por ti. Qual a importância da leitura desse livro para a tua poesia?

Alexandre:

Ricardo, não sei se este livro que tens é meu. Desconfio que não. Não tenho o hábito de fazer anotações nas páginas. Agora, o Anticrítico, introduziu-me numa nova perspecticva de leitura, um outro modo de olhar/interpretar a tradição, ou melhor, as tradições que nos precedem. Autores como Jonh Donne, Dante, E. Fitzgerald, Lewis Carrol, John Cage e outros, apresentados à sua maneira, fazem um contraponto muito a propósito aos ensaios acadêmicos que ensebam ensebam e não gozam.

domingo, 29 de agosto de 2010

Livros para as pessoas


Sérgio Vaz, poeta da periferia de São Paulo, ligou para um órgão do governo pedindo livros. Ele queria distribuir para quem fosse ao Sarau da Cooperifa, que acontece toda quarta-feira no Bar Zé Batidão, na periferia. O funcionário de uma espécie de Instituto Estadual do Livro paulista perguntou para que Sérgio estava pedindo os cerca de trezentos livros. O poeta respondeu que era para dar às pessoas. O funcionário disse que não poderiam atender ao pedido, pois só podiam dar livros para instituições, não para pessoas.

sábado, 14 de agosto de 2010

Agora você vai ouvir aquilo que merece.



Sempre tem alguém resgatando Lupicínio Rodrigues. Em texto de 1967, o genial poeta Augusto de Campos falava que Lupi, depois de um período de grande sucesso, andava esquecido. Relata que veio a Porto Alegre para entrevistá-lo. O encontro foi no Clube dos Cozinheiros, um restaurante administrado pelo cantor Rubens Santos. Estavam com Augusto os poetas concretos Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Só pelo interesse desses três que estão entre os mais cultos e inventivos escritores brasileiros, já dá para ver a importância da obra do Lupi.

domingo, 11 de abril de 2010

Série Diálogos: Ricardo Silvestrin e Nicolas Behr

Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, em 1958. Mora em Brasília desde l974. Lançou diversos livros independentes. A reunião desse trabalho está em Laranja Seleta, editora Língua Geral, e O Bagaço da Laranja, edição do autor.

Ricardo:
Quando estávamos há um mês no aeroporto de São Paulo, depois do encontro do qual participamos na Casa das Rosas, eu esperando o avião para Porto Alegre, e tu esperando o avião para Brasília, tu mostraste um caderno em que estavas trabalhando um livro novo. Era sobre a tua infância. Havia fotos de quando tu eras pequeno, parentes, lugares. Em torno delas, ias escrevendo os poemas. Quando mostravas, dizias, esse poema, não sei se já está pronto, acho que esse outro ainda tem que trabalhar, esse aqui ficou bom... Teu trabalho de criação é assim sempre. Vais escrevendo e reescrevendo, ou nesse livro o trabalho está sendo assim? Enfim, como escreves?
Nicolas:
Digamos que eu "inventei" (pra mim) um jeito muito prático (e por ser prático talvez seja levemente anti-poético) de escrever meus livros: dividindo-os em temas. No momento trabalho com dois: Menino-lambari, sobre minha infância, que você viu parte no aeroporto e um outro sobre Brasília, com título indefinido. Esses dois temas são minhas obsessões, claramente falando. É um método limitante? É! Mas tentar vencer meus limites é o que me faz escrever.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Série Diálogos: Ricardo Silvestrin e Luis Turiba


O poeta LUIS TURIBA nasceu em Pernambuco, em 1950, e vive em Brasília desde 1979, tendo recebido o título de Cidadão Brasiliense pelos serviços prestados à cultura da cidade. Sua estréia na poesia se deu pela publicação do livreto Kiprokó em 1977. Recebeu o Prêmio Candango de Literatura do Governo do Distrito Federal, em 1998, pelo livro-CD Cadê. Entre seus trabalhos mais recentes, está a obra Bala (Salvador: P555 Edições, 2005).

Turiba:
Grande proposta, Silvestrin; podemos começar com uma pergunta que ainda não consigo encontrar respostas. Ricardo, sabemos que um poema, quando bem construído, traz em si uma certa sinfonia musical de ritmos e sonoridades com e das palavras. Alguns sonetos de Vinícius, por exemplo o "Soneto da fidelidade", induz a uma música. A obra dele é repleta desses exemplos, tanto é que Vinícius terminou deixando para trás o poeta clássico que foi para assumir o compositor meio hippie de "A tonga da mironga do cabuletê".

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Série Diálogos: Ricardo Silvestrin e Carlos Felipe Moisés


Ricardo:
No teu livro Noite Nula, um dos tantos excelentes poemas é aquele em que falas sobre um boxeador. Chamou a atenção o tom de diálogo, que há noutros também do volume. Isso leva para uma fala mais real, embora o interlocutor esteja ausente de fato. Mas, como o invocas, a fala do emissor fica com cara de fala mesmo. Isso hoje deu um ar de novidade, embora lá no século I, por exemplo, o poeta Marcial, em Roma, usava também desse recurso. Essa fala falada que tem na tua poesia como foi sendo construída na tua estética?

Carlos:
Se eu dissesse que a fala é tudo, seria exagero. A fala é quase tudo. A fala delimita o que um homem é. Durante anos, achei que como poeta eu devia falar de mim, para dar conta do que sou, falando, falando... Mas o que sou não está contido em mim. Se eu sou o que falo, o que sou remete ao outro, meu ouvinte, meu interlocutor. Se eu for capaz de pôr o outro a falar, ele vai falar de mim, ou vai falar comigo. E de qualquer modo eu estarei presente.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Série Diálogos: Ricardo Silvestrin e Nei Duclós


Começo aqui no Poesia Alheia uma série de diálogos com poetas que admiro. O primeiro é com Nei Duclós. Jornalista desde 1970, autor de sete livros publicados de poesia, romance, crônicas e literatura infanto-juvenil e alguns inéditos de ensaios e contos. Formado em História pela USP. Nasceu em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, em 1948.

Ricardo:
"Quem tomba primeiro ensina a tombar"?
Nei:
Sim, dá o mau exemplo. Tombar é um verbo muito caro a nós, poetas daqueles idos de 1969, tempo de guerra. O Marco Celso tem um poema belíssimo que termina assim: "Tombam os primeiros homens nos trigais", que serviu de título para nosso primeiro livro, uma antologia, seleta de poemas do Celso e meus, mais os contos da Mariza Scopel. A partir desse "tombam" original fiz o "quem tomba primeiro ensina a tombar", que é um apelo à resistência. Gosto do verbo, gosto do seu som de tambor, de corpo que bate no chão, faz barulho, convoca, alerta, reclama.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Noite proveitosa




Alguma coisa melhorou no Brasil. Não está na estatística. Não foi medida. Não faz parte do discurso dos governos. Ninguém chamou pra si a responsabilidade pela melhora, querendo ganhar voto, aplauso, até dinheiro quem sabe.
Segundo o professor de literatura, tradutor e poeta paulista Carlos Felipe Moisés, um homem de sessenta e sete anos, que escreve muito bem, a qualidade da poesia brasileira está cada vez melhor.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Que palavra?


Pra que tirar os significados do lugar? Às vezes se tira por prazer; às vezes se tira por necessidade. E mesmo o prazer também é uma necessidade. Talvez a primeira e mais importante de todas. Quando o prazer de viver, por mínimo que seja, acaba é que se morre. Então, pra continuar vivo, precisamos deslocar os significados, rever, re-significar. Dar um novo sentido às coisas. A arte que faz isso o tempo todo é a poesia. Alguns poetas, muito poucos, em determinados momentos, levam esse gesto criativo que vivem fazendo com as palavras para fora do texto. Levam para a vida e ajudam a mudar a história.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Chacal e a nova linguagem da poesia brasileira


Em 2007, a editora brasileira Cosac Naify lançou uma reunião com a produção do poeta Chacal. O volume contém as obras editadas de 1971 a 2002, além do inédito Belvedere, com uma série de novos poemas. O conjunto mostra a força e a originalidade desse autor que está no centro da transformação da poesia brasileira do final do século XX até os nossos dias.
Chacal, Ricardo Carvalho Duarte, nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Aos vinte anos, lançou Muito prazer, Ricardo. Em seguida, O preço da passagem e América. Os três livros foram produções independentes, com tiragens pequenas, distribuídas de mão em mão nos bares, portas de cinema e teatros. Em 1975, lançou a narrativa em versos Quampérios pelo grupo Nuvem Cigana, uma produtora de eventos e inventos que uniu escritores, artistas plásticos, músicos, atores e pirados em geral. Em 1979, colocou na rua, novamente de forma independente, a trilogia Olhos vermelhos, Nariz aniz e Boca Roxa. Em 1983, esses livros foram reunidos em Drops de abril, coletânea distribuída em todo o Brasil pela grande editora Brasiliense.
O impacto desse resgate foi enorme na produção dos jovens poetas do início da década de oitenta. O verso de Chacal, dialogando com as cenas rápidas, o humor, a fala telegráfica de um dos mais inventivos modernistas brasileiros, Oswald de Andrade, constrói um poema que deixa velho o que vinha se fazendo até então. A fala sem cerimônia, a gíria, o rock, a contracultura, a festa, as drogas, tudo isso que estava fora da poesia entra como sangue novo dessa nova linguagem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Um poeta e um filósofo



É muito mais difícil ter uma boa ideia e ser claro. É muito mais fácil não ter muito a dizer e fazer um texto confuso, pretensamente profundo. É o que diz o filósofo alemão Schopenhauer no seu livro A arte de escrever. Quem achou algo interessante para mostrar não vai querer ocultar. Vai usar os recursos do texto para revelar. Já quem não tem nada de muito valioso para colocar acaba usando de recursos de estilo para evitar que descubram o vazio de ideias que está base do seu discurso. É certo que há bons escritores no time dos claros e também no dos mais opacos. Não está nos recursos utilizados a qualidade. Há claros e simplórios. Há obscuros e vazios. Como também há claros e ao mesmo tempo difíceis e geniais. E obscuros que deixam entrever pontas de comunicação que valem por mil páginas. Mas a consideração do Schopenhauer lá no século XIX vale para cutucar a tendência, que ainda hoje persiste, de achar que um texto que não se entende tem alguma coisa muita profunda que ultrapassa o leitor. Pode ter, e o problema ser do leitor. Mas pode ser engodo mesmo disfarçado de grande coisa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Abaixo, a ditadura.



Acabei de chegar do show do Leo Jaime no Abbey Road. Escrevo suado e cheirando a cigarro dos outros. Uma historinha que não sabia sobre uma das músicas do Leo em parceria com o Leoni. A versão para “So lonely”, do Police, feita pela dupla de rockeiros brasileiros, era uma “homenagem” à censora da polícia federal no período da ditadura militar. Ela se chamava Solange. Seu nome, segundo contou o Leo Jaime, assinava aquele certificado que entrava antes de qualquer programa que se via na tv. Pra quem nasceu ontem, antes de entrar uma atração, vinha um certificado da censura junto com a voz do locutor dizendo “este programa foi aprovado pela Censura Federal....”.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Do Oiapoque até aqui


Um p, de pássaro, passeia ao longo do verso: “pousa na palma parada”. O p pousa, o p na palma, o p e a palma parados. Agora, o haicai todo: “Andorinha só/pousa na palma parada –/não é verão ainda.” Anibal Beça nos envia essas Folhas da Selva, um ótimo livro com trezentas e sessenta páginas de haicai, lá do Amazonas. Foi publicado numa bonita edição pela editora Valer, de Manaus.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Todo mundo e ninguém


Esses são os nomes de dois personagens de uma peça: Todo-mundo e Ninguém. O primeiro se apresenta dizendo que vive a buscar dinheiro. O segundo busca a consciência. Dois outros personagens em cena comentam: todo mundo busca dinheiro e ninguém busca a consciência. Todo-mundo, a seguir, diz que gosta de ser elogiado, louvado. Já Ninguém prossegue dizendo que gosta de ser repreendido quando está errado. Os outros dois comentam: todo mundo gosta de ser bajulado e ninguém quer ser repreendido. Com esse jogo de linguagem, segue a peça inteira e vai nos revelando os embaraços e valores de todos nós. O autor da peça é o português Gil Vicente. Foi escrita anteontem: em 1532. Faz parte do Auto da Lusitânia.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ser ou não ser poeta


Um príncipe tem seu pai morto. O assassino é o irmão do antigo rei. O novo soberano, além de tomar o trono, toma também a rainha, mãe do príncipe, como esposa. Ninguém sabe do assassinato, mas o fantasma do rei falecido aparece para uns soldados que avisam o príncipe. O pai morto revela ao filho os fatos e pede que vingue sua morte. Que enrascada! Como voltar ao reino e dizer: um fantasma me contou tudo! Hamlet, o príncipe, tem uma verdade que não pode ser dita. Dessa impossibilidade de dizer as coisas claramente se constrói um personagem cujas falas são sempre enviesadas.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Rimbaud, índio velho!


Estava lendo Uma temporada no inferno, do poeta francês Rimbaud, e me saltou um bah! nos olhos e nos ouvidos. Pensei que fosse uma adaptação do tradutor, o excelente poeta Paulo Hecker Filho. Olhei para o original em francês e lá estava: “Bah! faisons toutes les grimaces imaginables”. Em português: “Bah! Façamos todas as caretas imagináveis”. Consultei minha amiga, a tradutora Rosane Pereira. Ela me esclareceu que existe o bah! em Francês. É uma expressão coloquial. Equivale mais ou menos ao argh, ou irque, ou seja, não é um bah! positivo como o nosso. É negativo. Embora o nosso também possa ser usado em situações de censura - bah!, que horror!, empregamos mais para surpresas boas – bah!, estava muito legal!. Paulo Hecker poderia ter optado por algo explicitamente negativo na tradução, mas preferiu o bah!, que, afinal, também pode ser usado nesse contexto. E o tradutor é gaúcho. Além do mais, ter um bah! no Rimbaud é uma vitória para os nossos pagos que o Hecker não deve ter querido jogar fora.

domingo, 24 de maio de 2009

Uma mini-babel


Há poucos dias, uma repórter me perguntou se os poemas que circulam nos ônibus em Porto Alegre contribuíam para aproximar as pessoas da poesia. A pergunta supunha que houvesse uma distância. Respondi que, ao contrário, a poesia é tão próxima das pessoas que se encontra nos ônibus. Se fosse distante, jamais estaria ali. Nosso mundo ocidental começa lá na Grécia antiga. E o que herdamos dos gregos? A poesia e a filosofia. É através dessas duas artes que nos entendemos como seres humanos. Sem figurar, sem aprofundar, sem pensamento e linguagem não existimos. Foi quando o homem passou a falar de si mesmo e não mais dos deuses que se chegou à poesia lírica. O poeta entoando seus versos ao som de uma lira. E a platéia aplaudindo e pedindo bis. Foi pela poesia que se entendeu como é uma língua. Língua não existe. O que temos é a fala. Onde está a língua? É uma abstração. Lá se foram os gramáticos tentar formular como são as línguas. A quem recorreram? Aos poetas. Italiano se escreve assim porque Dante escreveu, diz como último recurso um gramático. Português é desse jeito porque o exemplo é Camões. Olha quantas páginas esse cara fez - dirá o gramático – vai duvidar dele? É claro que os poetas não fizeram nada disso para virar a matriz de pensamento ou de linguagem de um povo. Fizeram porque são artistas. Tiveram a necessidade de fazer. Mas são, mesmo sem querer, o que molda a expressão, a maneira de perceber as coisas e, mais do que isso, a maneira de dizer as coisas de um povo. Mesmo que não leia um livro de poesia durante toda uma vida, ninguém está nem estará distante da poesia. As formas poéticas, os temas, estão velados nas canções populares, nas abordagens dos compositores, nas tramas de novelas, na fala do dia-a-dia, no jeito de ser, de pensar e de sentir. Fazer uma viagem pelas relações entre poesia e história da sensibilidade de um povo é o que nos traz a leitura dos quatro volumes da coleção de poesia espanhola traduzida e organizada por Fábio Aristimunho Vargas, editora Hedra. Na Espanha, co-existem quatro línguas: castelhana, catalã, basca e galega. É uma mini-babel.

sábado, 16 de maio de 2009

Ver e ouvir



Durante séculos, a poesia foi uma arte que criou com o som das palavras. As rimas e as métricas facilitavam a memória de quem iria dizer o poema, muitas vezes longo, contando e cantando os grandes feitos de um herói. Escrever esses textos servia apenas para registrá-los a fim de que não se perdessem. Era o que faziam os copistas.
Ler o poema no papel e não mais ouvir da boca do poeta é coisa que vira moda depois de Gutemberg. Com os livros, os poetas passaram a incorporar um novo elemento ao texto: o papel. E, nele, a palavra como desenho. Saímos do reino do ouvido para o dos olhos.
Trajetória inversa à da história da poesia teve que fazer o poeta paulista Glauco Mattoso.

sábado, 2 de maio de 2009

Para ler com fones de ouvido



Não tenho visto por aí livros que contenham mais de um gênero literário. Houve um tempo em que era mais comum haver edições com contos e crônicas e, às vezes, até poemas junto. Lembro de um de que gostava muito, o Geração Grapete, da Suzana Kilpp. Outro legal com textos variados era o Aquele Um, do Luciano Alabarse. Muitos vinham também com fotografias e desenhos. Achei em Buenos Aires uma edição bonita e com um preço ótimo de um livro do Julio Cortázar. É o Salvo el crepúsculo.

sábado, 18 de abril de 2009

Números


Há mais pessoas interessadas em prosa ou em poesia nas comunidades do Orkut? Para fazer a pesquisa, é fácil. Basta colocar no item comunidades e digitar o nome do autor que se pretende verificar. Aparecem a seguir todas as comunidades que fizeram em sua homenagem em ordem decrescente pelo número de participantes. Vamos ao ranking. Elegi primeiro os grandões para comparar. De um lado, Drummond, aquele que parece ocupar o posto de maior poeta brasileiro. De outro, Machado de Assis, que, apesar de ter escrito uma vasta obra poética, é cultuado como o maior prosador do Brasil, por seus contos e romances. A maior comunidade de Drummond tem 267.809 participantes. A maior de Machado, 95.146. A coisa piora para o lado da prosa se comparamos Machado com Vinícius de Moraes.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sebos


De quem eram esses livros todos que estão nos sebos? Nem sempre o livro faz o caminho mais curto até chegar às mãos de um leitor que o deseje. Da editora para a livraria e por último para quem o comprou. Muitas vezes, volta para um sebo, à espera de uma segunda chance. É claro que vender os livros que se tem em casa também é uma maneira de levantar um troco quando se está precisando. E tem aquelas pessoas que morreram e deixaram de herança sua biblioteca para ser passada nos cobres. Quando se é autor e se acha um livro da gente num sebo, pensamos logo que alguém não gostou do que escrevemos. Mas quando vemos os outros autores que nos fazem companhia, ficamos mais aliviados: Kafka, Borges, Tolstói, Machado de Assis, Drummond e por aí vai. Deve haver outros motivos para

segunda-feira, 30 de março de 2009

Liberdade




Estive relendo o Manuel Bandeira. Olha, desde os 11 anos leio esse poeta. Lembro que na quinta série tinha um livro muito legal nas aulas de Português, o Criatividade. Não era de gramática. Nem era daqueles com exercícios de compreensão de texto, cujo único objetivo parecia ser checar se você não é um completo pateta. Tipo assim, vem um parágrafo e a seguir uma série de perguntas cujas respostas estão todas nele. Nada disso. O Criatividade era um livro com poemas, letras de música, crônicas, histórias em quadrinhos e muitos exercícios de criação a partir das leituras. Foi nele que li pela primeira vez poemas do Manuel Bandeira como o Porquinho da Índia, Irene, Vou-me embora pra Pasárgada, Trem de Ferro.
Mais tarde, com 16 anos, li toda a Antologia Poética do Manuel. Reli-o agora pela sabe-se lá que vez, numa publicação da Nova Fronteira. São dois dos livros mais significativos do poeta reunidos num só volume: Libertinagem e Estrela da Manhã. O primeiro é de 1930, e o segundo, de 1936.
A primeira surpresa é como, em termos formais, ele

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A ronda de Caetano Veloso




Ouvir as melodias. Foi o que aprendi um pouco com o músico e professor Leandro Maia. Uma boa maneira de fazer isso é cantarolar a melodia sem a letra. Foi o que fiz nesta semana pra achar em que ponto Sampa, de Caetano Veloso, dialoga com Ronda, de Paulo Vanzolini. Já sabia que havia esse diálogo, acho que de entrevistas do Caetano. Ouvia uma semelhança, mas fui descobrir onde estava. É no último verso de Ronda: “cena de sangue num bar da Avenida São João”. Experimente cantarolar sem a letra. Ou ouça a gravação de Sampa com João Gilberto. Ele inicia cantarolando esse ponto, dando a dica. Esse trecho se repete em partes da melodia de Sampa: “e novos baianos te podem curtir numa boa”. Também antes, depois de quando ele fala da Rita Lee, na repetição do “que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João”. E fechando a estrofe seguinte: “porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”. Então, para falar de São Paulo, Caetano foi pegar como base Ronda, um samba que é um verdadeiro hino da cidade. Começa com “de noite/eu rondo a cidade/a te procurar...”. Essa ronda pela cidade, à procura de entender São Paulo, está na canção de Caetano. E a Avenida São João, que termina Ronda, começa Sampa: “alguma coisa acontece no meu coração/que só quando cruz a Ipiranga e a Avenida São João”. A avenida atravessa as duas canções. Na de Caetano, desfilam todos os símbolos que ele considera importantes no seu desvendamento de Sampa. Rita Lee, que chama de a mais completa tradução. Mutantes. “Teus poetas de campos e espaços”, alusão aos poetas concretos Haroldo e Augusto de Campos. “Da dura poesia concreta de tuas esquinas”. E Décio Pignatari, o outro poeta concreto, também é citado com o avesso do avesso. Túmulo do Samba é como Vinícius de Moraes se referiu a São Paulo para o pianista Johnny Alf. E assim Caetano vai rondando a cidade por vários ângulos: culturais, afetivos, críticos, autocríticos. “E os Novos Baianos (a banda do Moraes Moreira, Pepeu, Baby...) passeiam na tua garoa”. “E novos baianos (outros baianos que não param de chegar) te podem curtir numa boa”.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Agora você vai ouvir aquilo que merece


Sempre tem alguém resgatando Lupicínio Rodrigues. Em texto de 1967, o genial poeta Augusto de Campos falava que Lupi, depois de um período de grande sucesso, andava esquecido. Relata que veio a Porto Alegre para entrevistá-lo. O encontro foi no Clube dos Cozinheiros, um restaurante administrado pelo cantor Rubens Santos. Estavam com Augusto os poetas concretos Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Só pelo interesse desses três que estão entre os mais cultos e inventivos escritores brasileiros, já dá para ver a importância da obra do Lupi. E ele aqui, em Porto Alegre, discreto, cantando à capela no bar do seu grande e talentoso amigo. Augusto conta que ouviu muitas canções inéditas naquela noite. Depois do bar fechar, Lupicínio soltou o gogó e mandou ver sem acompanhamento nenhum. Em texto de 1974, Augusto fala que, para sua alegria, o quadro de esquecimento foi se alterando. Em 71, João Gilberto cantou na tv “Quem há de dizer”, do Lupi. Em 72, Caetano cantou em show “Volta”. Em 73, “Nervos de Aço”. Gal gravou “Volta”. Macalé cantou “Um favor”e “Ela disse-me assim”. Paulinho da Viola arrasou em linda interpretação de “Nervos de Aço”. Anos depois, a Bethânia, dramática: “e aí, eu comecei a cometer loucuras/era um verdadeiro inferno, uma tortura/o que eu sofria por aquele amor”. Tem uma gravação clássica de tv, em preto e branco, com Lupicínio cantando. Sua interpretação calma, com voz baixa, sem gritaria, contrasta e acentua a força expressiva do seu texto. A frieza do seu canto torna mais crua cada palavra. Há um canto-falado em alguns momentos, como quem conversa: “eu gostei tanto/tanto quando me contaram/que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar/e que quando os amigos do peito por mim perguntaram/um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar/eu gostei tanto/tanto quando me contaram/que tive mesmo que fazer esforço pra ninguém notar”. Como no poema de Drummond: “algumas palavras duras/em voz mansa, te golpearam”. Para revelar a agressividade dessa saudável “Vingança”, fiz um arranjo punk e cantava essa música no repertório da banda de rock Os Ladinos, que tive há alguns anos. O backing cantava “Vingança, vingança, vingança”, e eu seguia “eu quero mais nada/só vingança, vingança, vingança aos santos clamar/você há de rolar como as pedras que rolam na estrada/sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar!”. Era um arranjo Sex Pistols, Ramones. Arnaldo Antunes também fez um arranjo de rock para “Judiaria”. Sublinha com o canto roqueiro a força e a crueza da letra: “agora você vai ouvir aquilo que merece”. E a seguir um verso genial e profundamente irônico: “as coisas ficam muito boas quando a gente esquece”. E segue: “essas palavras que estou lhe falando/têm uma verdade pura, nua e crua/eu estou lhe mostrando a porta da rua/pra que você saia sem eu lhe bater./já chega o tempo em que eu fiquei sozinho/que eu fiquei sofrendo, que eu fiquei chorando/agora quando eu estou melhorando/você me aparece pra me aborrecer”. Um coturno e um cabelo moicano cairiam bem no Lupi.

Vou ali na China e já volto




Estão aí dois grandes poetas brasileiros sendo homenageados quase ao mesmo tempo: Vinicius de Moraes com um documentário no cinema e Mario Quintana com edições comemorativas ao centenário do seu nascimento. Pegando carona nessa onda de relembrar poetas, voltei ao século VIII. No ano de 701, na China, nascia Li Po. A primeira vez que li um poema seu era este: “Na vida/é preciso tanto seriedade/quanto delírio./Se tiveres mais de um pão/vende um/e compra um lírio”. A concisão do texto afirma uma filosofia de vida , quase hippie. Os cabeludos da década de 60 foram buscar no oriente grande parte do pensamento que embasou a contestação aos valores do mundo ocidental. “Se oriente rapaz”, como cantou Gilberto Gil. Tem um livro belíssimo com traduções que a Cecília Meireles fez de dois poetas clássicos chineses: Li Po e Tu Fu. Ali, fiquei sabendo mais sobre o poeta-hippie chinês do século VIII. Ele viveu durante a dinastia Thang. Nesse período, havia na China cerca de 2.300 poetas em atividade. Costumava-se dizer que “naquela época cada homem era um poeta”. Muitas vezes, é da quantidade que nasce a qualidade. Entre esses criadores, Li Po despontou, tendo sua poesia chegado ao ocidente e permanecido até hoje. Num poema escrito por Tu Fu, , seu amigo, prenuncia-se a eternidade da obra de Li Po: “Depois de dez mil, cem mil outonos/não terás outro prêmio que o prêmio inútil/da imortalidade.” Não é por acaso que Cecília Meireles foi traduzir esses chineses. Tanto os textos dela quanto os dos autores que escolheu para recriar na nossa língua estão repletos de imagens. Olha só este de Li Po: “A esposa do guerreiro está sentada à janela./De coração aflito, borda uma rosa branca numa almofada de seda./Picou-se no dedo! Seu sangue escorre na rosa branca, que se torna vermelha./Seu pensamento vai ter com seu amado, que está na guerra e cujo sangue tinge talvez a neve de vermelho./Ouve o galope de um cavalo...Chega, enfim, seu amado?/É apenas o coração que lhe salta com força do peito.../Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata/as lágrimas que cercam a rosa vermelha.” É quase um videoclip. A canção vai narrando a cena da esposa enquanto um show de imagens se desenrola a nossa frente. A ação presente se mistura com as ações do pensamento, enquanto as cores, numa fusão de imagens, vão se transformando. E tudo isso, apenas com palavras. Agora olha esse movimento de zoom dentro do poema da Cecília Meireles: “No mistério do Sem-Fim, equilibra-se um planeta./E no planeta, um jardim,/e, no jardim, um canteiro;/no canteiro, uma violeta,/e, sobre ela, o dia inteiro,/entre o planeta e o Sem-Fim,/a asa de uma borboleta.” Não são poemas para ler apenas. São para ver. Em outro texto, Li Po nos revela a beleza de simplesmente olhar para as coisas. Acompanhe o seu passeio de câmera-olhar: ”As nuvens são leves, o vento é sereno, aproxima-se o meio-dia./Diante das flores, um regato corre, ao longo dos álamos./Os homens não podem compreender a alegria que transborda do meu coração/ e dizem que estou alegre sem motivo, como uma criança.” Só ver já é uma alegria. Precisamos comer muito feijão pra virar chineses.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Tudo já foi feito?


Uma das máximas da arte de vanguarda é que chegaram ao limite disso ou daquilo. Ao limite da linguagem, ao limite da representação, ao limite da narrativa. Esse comportamento muito comum até o final dos anos sessenta, se olhado em retrospectiva, é um dos charmes da época. O que ocorreu depois disso tudo é que as artes continuaram, ou seja, os limites são muito mais amplos do que se supunha. A reação a essa obrigatoriedade da invenção vem com a arte de setenta pra cá, com outra máxima: tudo já foi feito. O que desobriga o artista de ficar fuçando uma novidade, daí o remix, a releitura, a referência. Mas essa é também uma frase de efeito, um charme da época atual. Isso porque é impossível que tudo já tenha sido feito. Há ainda muito por fazer. Sempre vai haver. Enquanto houver uma nova pessoa há grandes chances de haver uma nova descoberta no campo estético. A linguagem também é veículo de uma visão de mundo. E a cada nova geração, ou a cada nova pessoa original que surge no pedaço, a linguagem ganha novos coloridos e, quando menos se espera, ela se reinventa. Falo de linguagem no sentido de conjunto de procedimentos artísticos nas diversas artes. Na pior das hipóteses, como cantou Lulu Santos, “se tudo já foi feito/então vamos fazer tudo outra vez”. Mas por mais iludida que tenha sido a busca das vanguardas, acreditando ter atingido os limites, a postura de se colocar o desafio de fazer algo próprio, diferente em algum aspecto do que se conhecia até então, acabou alargando as possibilidades humanas de pensar e realizar as diversas artes. É o que se pode constatar na leitura do livro Experiência Neoconcreta, do Ferreira Gullar. Ele conta sua trajetória como poeta de vanguarda. Foi procurado pelos concretistas no início do movimento da poesia concreta. Os irmãos Campos e Décio Pignatari já haviam farejado a novidade na poesia de Gullar. Juntos, formularam o que seria o pontapé inicial do que trouxe muita novidade para a poesia do mundo todo. A seguir, Gullar, por discordar de alguns dos pontos programáticos dos concretistas, cria com outros poetas e artistas plásticos o Movimento Neoconcreto. Livro-poema, um poema que sozinho é um livro. Poemas interativos muito antes desse ambiente internético. Caixas que o leitor deve ir abrindo e lendo-descobrindo o sentido. Poema enterrado, uma sala em que o leitor entra para ler o poema. Cortes nas páginas para propor uma determinada leitura. E uma série de propostas criativas que foram insights também para os artistas plásticos do grupo, como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Tanto que Gullar acabou se questionando se não estava sendo menos poeta e mais artista plástico, uma vez que seus poemas tinham cada vez menos palavras, às vezes uma só. O bom desse livro é que Ferreira Gullar conta e reflete sobre o período com os olhos de hoje. E a publicação traz também os textos, manifestos e formulações da época, além de reproduções de vários poemas, inclusive de poemas-livros. Concreto, neoconcreto ou apenas poeta, é sempre o grande artista Ferreira Gullar.

Revanguarda


Quando cheguei, com o poeta Nicolas Behr, ao terceiro andar da Biblioteca Nacional em Brasília, Ziraldo me disse: veio ver a exposição do Reynaldo Jardim? Estávamos indo buscar a poeta Alice Ruiz para um recital que iríamos fazer no bar Martinica. Ziraldo então me apresentou ao poeta que era o homenageado da Bienal Internacional de Poesia. Na saída, disse-me que se tratava de uma das pessoas mais criativas do Brasil hoje. No dia seguinte, fui, em companhia do próprio Reynaldo e de um grupo de poetas amigos, ver seus trabalhos. O prédio já estava

O impreciso


Lendo a poeta americana Emily Dickinson, encontro mais uma autora que possui exatamente aquilo de que mais gosto na arte da poesia. Ela viveu de 1830 a 1886. Publicou poucos textos em vida. Sua obra foi descoberta pela família, 1775 poemas inéditos, após a sua morte. Mas não é esse ar de destino trágico que me agrada. Do que gosto é uma precisa construção do impreciso. Existem os poetas de conteúdo visível. É possível claramente delimitar do que falam. Tratam de temas importantes, roçam os fatos da história do seu tempo. São, na maioria das vezes, os mais aceitos e elogiados, os considerados grandes. A experiência de leitura dos seus textos é mais próxima da que temos na fala comum. Alguém diz algo e não prestamos muita atenção às palavras, olhamos através delas, para o que elas indicam, pois estamos atrás do conteúdo. A prosa realista também dá essa ilusão de estarmos indo frase a frase atrás de um conteúdo. Drummond e Chico Buarque estão nesse time. São entendidos e louvados. Gosto deles também, mas, às vezes, parecem-me balofos de conteúdo. Como se o texto estivesse desequilibrado entre o sugerir, soar e dizer, sem deixar aquele espaço para que possamos até nos perder. Falo aqui de gosto, não de valor. O valor é dado por parâmetros e não pretendo fazer do meu gosto o critério de medida. Por isso, gosto mais de Manuel Bandeira do que de Drummond. Em Bandeira, o poema se realiza com muito pouco, mas se realiza como poema, não como tratado, mini-filosofia, mini-ensaio sociológico. Dos simbolistas franceses, prefiro Verlaine, das Festas Galantes. Do haicai japonês, adoro Issa. Da poesia dos anos 80 no Brasil, Alice Ruiz. Caetano Veloso me provoca mais do que Chico Buarque. Paul McCartney do que John Lennon. Alguns versos dos Poemas Escolhidos da Emily Dickinson, na tradução de Ivo Bender: “Por ocupação, só isto:/Abrir amplamente minhas mãos estreitas/Para agarrar o paraíso.”; “As misérias da conjetura/São uma dor mais amena/Do que um fato de ferro/Endurecido por “Eu sei”.”; “Dá-me, Senhor, uma ensolarada mente/Para suportar Teu desejo tormentoso!”. Palavras precisas para falar do impreciso.

Muito mais do que o irmão da Marina


Hoje há uma certa idealização do que se chamou mpb. Percebe-se em vários trabalhos lançados recentemente uma volta a uma idéia de música brasileira. Essa oscilação entre fazer uma música alinhada com a sonoridade internacional ou com a nacional marca os diversos períodos da nossa história musical. Vejo numa fatia culta dos jovens de hoje um grande respeito a Chico Buarque e Tom Jobim principalmente. Mas houve um período em que a mpb chovia no molhado: o início dos anos 80. As sonoridades sobretudo da música vinda do nordeste foram completamente assimiladas e pasteurizadas pelas grandes gravadoras. As cantoras posavam de divas com arranjos empolados e revisitação da revisitação dos compositores consagrados da música de décadas atrás. As letras competentes mas seríssimas de Chico, Gil , Caetano, verdadeiras teses seja sociológicas ou estéticas em forma de verso/melodia, estavam já pairando acima do bem e do mal. O papo engajado, nacionalista, que dava grande notoriedade a uma parte do que se chamou mpb, ficou sem função no clima de redemocratização do país. Mais: a gurizada que começava a compor estava falando da sua vida, bem mais simples e ainda menos grilada do que as dos quase cinquëntões que até então ocupavam o trono da música brasileira. Como falava um teórico alemão, uma nova visão de mundo pede uma nova linguagem. Nesse contexto, a desconstrução do código mpb começa com os trabalhos de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque e vai se desdobrando na Blitz, Ultraje a rigor, Barão Vermelho, Paralamas, Legião Urbana, Cascaveletes... No meio do caminho, estava Marina. Essa que hoje assina Marina Lima. E junto com ela, seu irmão, o poeta e letrista Antônio Cícero. Marina começou no contexto das grandes cantoras. Ao lado de Gal, Betânia e Elis, ela foi se colocando num misto de cantora de mpb e roqueira. Foi nos discos de vinil da Marina que conhecemos o talento de Antônio Cícero. “Você me abre seus braços/e a gente faz um país”, trecho da música Fullgás. Traz a questão que pesou sobre a cabeça de toda a geração que veio lá da década de 60, que sonhou fazer uma revolução, que perdeu para o regime militar. No texto de Cícero/Marina, o país se reduz ao encontro entre dois amantes. Do macro para o micro. E vice-versa. É o cuspir fora o “ideologês” que marcou toda uma juventude. Em “Virgem”: “As coisas não precisam de você/quem disse que eu tinha que precisar?”. Esse desvencilhar-se do sentimento de perda do seu amor pedindo o apoio das coisas. Aderindo ao desinteresse das coisas. Cícero também pode e deve ser lido nos seus belíssimos livros de poesia. Li e venho relendo sempre “Guardar” e “As cidades e o livros”. “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. /Em um cofre não se guarda coisa alguma./Em cofre perde-se a coisa à vista./Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la,/ isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado./Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,/ isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,/ isto é, estar por ela ou ser por ela.” Cícero é um poeta para guardar.