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| Ricardo Aleixo é poeta, compositor, cantor, performador, ensaísta, artista visual e sonoro. Publicou os livros “Festim” (1992), “A roda do mundo” (1996 e 2004, com Edimilson de Almeida Pereira), “Quem faz o quê? (1999), “Trívio” (2001), “A aranha Ariadne” (2003), “Máquina zero” (2004), “Céu inteiro” (2008) e “Modelos vivos” (2010). |
Silvestrin:Aleixo, "boca também toca tambor"?
Aleixo:
E como toca! A boca é um instrumento musical/sonoro fabuloso. Mesmo com todas as engenhocas eletrônico-digitais à nossa disposição, ainda temos muito o que explorar em termos do que quer e do que pode o mais nobre dos orifícios humanos. A propósito, que tipo de boca você gosta mais?
Silvestrin:
Então. Vi tua apresentação em São Paulo, na Casa das Rosas, naquele evento de lançamento do livro O que é poesia?, organizado pelo Édson Cruz. Pra quem não viu, esse verso teu “boca também toca tambor” era dito por ti, e toda a percussão que contém essa fala soava nos nossos ouvidos. Tua fala explorava melodias intrínsecas à prosódia. Foi muito legal. Existe, claro, esse espaço entre fazer música com melodia construída pra ser cantada e uma outra arte, não mais fala, mas ainda não canto. Já fiz, recitando solo, algumas coisas por aí. Gosto de fazer. Tive dois momentos de grande abertura de consciência do som. Num, percebi a melodia da fala, a melodia da música e foi como se meus ouvidos tivessem ficado enormes. E um segundo momento de cantar muito todas as curvas e sons de uma música, ouvindo arranjos e todas as vozes/instrumentos, cantando com todos os timbres. Esse plano sonoro é muito bom de entrar nele. A boca é parte do jogo. Tua arte tem sempre uma clara noção do gesto estético. Percebe-se que sempre estás explorando um projeto artístico, não apenas dizendo algo. O que vem antes para ti? O projeto ou o descobres no fazer?
Aleixo:
O projeto, para mim, é um componente indispensável do processo. Mesmo que eu o desconsidere parcial ou totalmente no decorrer da performance, em favor de novas possibilidades que se apresentam naquele "aqui e agora" irrepetível. Costumo falar em roteiro de errâncias, a respeito do que faço em performance. Projeto formas de, às vezes literalmente, me perder em cena. E quanto a você, no trabalho com os (impagáveis) PoETs, como faz? Você já trabalhava com música antes de formarem o grupo? Se sim, que tipo de música era essa?
Silvestrin:
Sim, participei de duas bandas antes: OS 3 POETAS e OS LADINOS. Na primeira, a proposta é parecida com a dos poETs. Éramos eu, o Alexandre Brito e o Ricardo Portugal. Também fizemos um repertório de músicas, vários shows, tocamos nas rádios locais. Mas não lançamos cd (diferente dos poETs em que já lançamos dois). Na segunda, eu era vocalista e compositor. Era mais rock. Nos três trabalhos, são bandas, música e letra. E performance de palco, roteiro, ensaio. Temos o show só com os três – dois violões e três vozes – e também com mais três músico - bateria, baixo e guitarra. No acústico ou no elétrico, ensaio-ensaio-ensaio, arranjos de voz, arranjos das músicas. O que vamos achando no caminho são nuances de interpretação vocal, de acordes de vozes, de arranjos de banda. Também trabalhamos bastante a sequência das músicas no show. A brincadeira do Ronald Augusto é que um dia vamos lançar os Roteiros Completos dos poETs. Mas esse roteiro de errâncias de que falas se aplica também à criação da tua poesia escrita?
Aleixo:
Nem sempre. Na escrita sou quase um alemão, de tão rigoroso que sou. Rs. Poderia dizer japonês, fazendo menção à disciplina zen, mas quero dizer alemão mesmo. Me lembro de poucos poemas que foram publicados sem passarem por, pelo menos, umas dez versões diferentes. Te devolvo a pergunta, com o fim de saber como você procede quando escreve algo abertamente cantável, como é o caso - escolho meio a esmo - daquele poema que começa com o verso "há uma cidade por dentro"? Rola um dilema entre definir aquilo como letra de música ou poema para ser publicado em livro?
Silvestrin:
Não. Tudo pode ser cantável. É só botar uma melodia em cima. Escrevo poemas diferentes, de um verso, de vários, com espaçamentos, uma letra por página, e também com o som da palavra, o ritmo do poema, o ritmo da fala, a melodia da fala, ou só o corte no papel. Então, não confundo a melodia do texto, melodia de fala, com melodia de música. Isso é outra arte. Quando componho músicas, tanto sozinho quando com os poETs, faço sempre uma melodia de canto. É uma melodia artificial. Não é a do texto. Poderia comportar diferentes textos até. Isso pode ser criado junto com a letra (quando crio sozinho faço muitas vezes assim). E mesmo com meu violão, já fiz como fazemos nos poETs: criamos primeiro a sequência de acordes, depois a melodia e por último a letra. É por isso que nossas músicas são músicas, boas de cantar. Não são poemas musicados ou transformados para letra. São letras mesmo, criadas para a música. Desse modo, não tenho dilema de escolha. Um poema pode usar do som das palavras, do ritmo e sempre aparece alguém dizendo: oh, isso daria uma letra. E eu me benzo e penso: tomara que eu não precise dizer para não musicar. Porque, via de regra, fica uma música sem graça. O texto foi criado para ser lido. E poucas pessoas sabem compor uma boa melodia. E ainda que componham, vão acabar mexendo no poema, criando repetições, refrões, uma continuação e tudo que não era pra fazer com um poema que nasceu para ser poema. Não vejo como um status: ah, tal cara importante musicou. Quando surge um músico interessado, digo: queres que eu escreva uma letra pra ti? Então, mesmo que não haja ainda uma melodia, escrevo um texto/letra: com estrofes mais regulares, com repetições, com refrão, com uma variação que permite uma segunda ou terceira parte. Faço um texto cantável de verdade. Um texto que daria uma boa música, preparado para isso. É esse papo que hoje fica melhor definido como canção, embora, para mim, chamar de canção soa meio Agnaldo Rayol. Com essa voz linda que tens, não estás preparando um trabalho musical, de canção?
Aleixo:
Minha relação com a arte começou pela música. Melhor dizendo, pelo canto: dos 11 aos 14 anos fiz parte de um coral no colégio em que estudava. Gostava muito de cantar, mas não
considerava a hipótese de vir, mais à frente, a desenvolver aquela aptidão. Por volta dos 16, descobri um outro talento: fazer imitações. Já no segundo grau, em outro colégio, eu divertia a turma com minhas imitações de cantores como Alceu Valença, Belchior, Zé Ramalho, Raul Seixas e outros. Até que descobri Milton Nascimento, e a coisa passoua ter outro sentido. Eu passava dias inteiros ouvindo Milton: o disco Minas, de 1976, que ganhei de minha mãe ao completar 18 anos, em 1978, eu ouvi vezes sem conta. Conheço cada nota, cada compasso, cada palavra daquele disco. Quando dei por mim, lá estava eu fazendo minhas primeiras canções. Curiosamente, essas canções surgiram na mesma época em que fi meus primeiros poemas, mas eram - canções e poemas - como água e óleo, na minha cabeça: coisas completamente diferentes. Já "homem feito", ali pelos 35 anos, foi que ousei fundir as duas coisas, e fiz um espetáculo no qual misturava canções e poemas. De certo modo, esse formato se manteve até bem recentemente, mas as vocalizações de poemas (com o uso
de técnicas de expanded voice) passaram a predominar. Já há coisa de uns 6 ou 7 anos voltei a compor canções, com o objetivo de montar o repertório para um CD. Somando as parcerias com músicos como Zeca Baleiro, Gil Amancio, Gilvan de Oliveira, Juarez Maciel e outros aos temas que compus sozinho, ao violão, já são mais de 50 músicas compostas. Eventualmente, canto uma ou outra nas minhas performances, um pouco para testá-las junto ao público, um pouco porque elas praticamente impõem sua presença no roteiro. Se os deuses forem propícios, daqui a, no máximo, dois anos, solto meu primeiro CD de canções. Mas me diga: como você analisa o espaço para o tipo de trabalho que você faz, aí em Por to Alegre, em comparação com o que se passa em outros centros? Me conte, também, por favor, sobre a receptividade ao seu trabalho (tanto o poético quanto o musical) fora do Rio Grande do Sul.
Silvestrin:
Legal a tua trajetória musical. E logo vi que tinhas estudado canto. O Alexandre Brito, dos poETs, também cantou em coral. Isso dá uma qualidade muito boa ao canto dele. E ao teu também. Mas uma coisa que vem antes da técnica é o timbre. Ou seja, a voz natural de cada um. É como o rosto. Uns nascem mais bonitos. É questão de sorte. E tanto a tua voz como a do Alexandre são muito bonitas. Depois, com a colocação, o ar, o ouvido, tudo pode soar melhor. Aguardemos então com uma alegre expectativa teu cd! Acho que posso dividir por décadas a repercussão do meu trabalho. Na década de oitenta, fizemos várias coisas que marcaram por aqui: a Coolírica, a Roda de Poesia, lancei os livros Viagem do Olhos, Bashô um santo em mim e o infantil de poesia O Baú do Gogó (dez mil exemplares vendidos). Tudo isso repercutiu em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, mas fui premiado em São Paulo no Encontro Brasileiro de Haicai (meus leitores fora do RS nesse período eram muito os haicaístas). Conheci também a Alice Ruiz e o Paulo Leminski, que gostaram bastante da minha poesia. Nos anos noventa, fizemos, eu e o Alexandre Brito, a coleção de poesia Petit Poa para a Coordenação do Livro da Prefeitura, criamos a banda Os três poetas, lancei os livros Quase eu e Palavra Mágica (IEL/Massao Ohno), esse último foi Prêmio Açorianos, o infantil de poesia Pequenas observações sobre a vida em outros planetas – Prêmio Açorianos e hoje já com vinte mil exemplares vendidos - também fiz a banda Os Ladinos. Músicas nas rádios locais, shows por aqui, leitores esparsos pelos Brasil, poetas, sobretudo. Entrevistei o Décio Pignatari e dei a ele o Palavra Mágica. Décio leu um dos poemas do livro abrindo uma conferência sua sobre James Joyce. Participei como poeta convidado do Porto Alegre em Buenos Aires. Apresentei o programa Todas as Letras, sobre letras de música, na rádio Pop Rock. Anos dois mil: criamos os poETs, lançando dois CDs, um por uma pequena gravadora de São Paulo, a YB – foi página do Estadão e recomendada no JB pelo Tárik de Souza, matéria do jornal da MTV, capa do segundo caderno da ZH; criamos a AMEOPOEMA editora, lançando quatorze livros de quatorze poetas – foi capa da Ilustrada da Folha de São Paulo e o resenhista destacou meu livro ex,Peri,mental - prêmio Açorianos de editora -; lancei infantis pela Ática, Salamandra e Cosca Naify; lancei o livro de poemas O Menos Vendido, pela Nankin de São Paulo – Prêmio Açorianos -, o livro de contos Play e o romance O videogame do rei, ambos pela Record; fui colunista da ZH por sete anos, fiz o Programa Transmissão de Pensamento por dois anos na rádio Ipanema FM – Prêmio Açorianos de mídia de literatura; shows em Manaus, Circo Voador, Sesc Pompéia, Barca Poética em Brasília, turnês de quinze cidades em Santa Catarina; mais leitores além dos poetas pelo Brasil, internet, mais poetas sabem que eu existo, mais participação em eventos literários fora do RS, destacando evento no Uruguai, mais circulação das nossas músicas em rádios menos comerciais, mais fãs internéticos e locais. É suado, mas é bom ir passo a passo, conquistando as coisas com trabalho. Tem muito ainda a repercutir mais o que faço e o que fazemos nos poETs, mas já estamos num ponto bem mais adiantado hoje. O que crio nunca é o esperado, nem o que rola fácil. Mas, pardoxalmente, é comunicativo, pelo menos aparentemente. Isso, creio, permite ir ampliando sempre público. Como vês essa questão da comunicabilidade na tua obra? Teus versos quebram em pontos que exigem ir buscar lá embaixo o fio da meada. Tua seleção de palavras exige, às vezes, um leitor com vocabulário coxudo. No entanto, tu tens, pelo menos à distância, bastante espaço como poeta no Brasil. Diz aí.
Aleixo:
Tenho mais espaço do que imaginava que viria a ter, quando comecei a escrever. Às vezes acho que esse espaço é menor do que o que eu poderia ter, caso vivesse numa cidade com mídia de alcance nacional, caso eu gostasse de vida literária, patotas curriolas, igrejinhas e tal, caso eu tivesse parentes importantes, caso isso, caso aquilo, sabe como? Mas não reclamo. Uma frase do Glauco Mattoso serve para explicar como me sinto: "Prefiro ser sapão de brejinho do que sapinho de brejão". Aos trancos e barrancos, criei um espaço que é só meu, mas que é totalmente aberto ao diálogo com artistas de outras áreas, com estudiosos de outros campos do conhecimento, com as pessoas ditas comuns e até com os poetas, veja você. Trabalho atualmente, entre outras coisas, na organização do meu acervo pessoal, o que tem me dado muito prazer e, ao mesmo tempo, a sensação de que não fiz outra coisa senão... tentar conquistar espaço. Mas, não: o que houve foi que, desde muito novo, lá no começo mesmo, entendi a opção pela poesia, pela arte, como um estilo de vida. E me joguei de cabeça nisso. E as coisas foram acontecendo. Os anos 90 representaram, para mim, o enfrentamento com um contexto artístico menos provinciano que o de Belo Horizonte. Foi quando comecei a publicar em jornais e revistas de outros estados, e até no exterior (na França e nos EUA). Foi também nesse período que eu comecei a participar da organização de eventos artístico-culturais, como o Festival de Arte Negra, a Bienal Internacional de Poesia, o seminário No País do Futebol e outros. E tinha, ainda, a coluna que mantive no jornal O Tempo entre 1996 e 2002, que me permitiu fazer muito barulho por aqui. Além da coluna fixa, eu fazia eventualmente entrevistas com poetas e artistas de outras áreas, como Augusto de Campos, Antonio Risério, Sebastião Uchoa Leite, Lígia Pape. Sempre entendi a entrevista como um trabalho - compartilhado - tão importante quanto um poema, um ensaio, um texto em prosa. Todos esses fatores ajudaram a fazer com que meu nome ficasse mais conhecido fora de Minas, embora a maioria das pessoas que tenta acompanhar o que faço afirme que não teve acesso a tudo o que publiquei, em termos de livros, ou que montei, no âmbito da performance ou dos trabalhos plástico-visuais. É uma luta diária, como você sabe bem, Ricardo. Mas uma luta boa de se travar, porque ela se dá num campo em que, se não posso desprezar ou alterar as regras existentes, posso pelo menos insistir para que elas sejam cumpridas - e isso, num país como o Brasil, já é muita coisa. Quanto a isso do "vocabulário coxudo", é e não é: reparando bem, você encontrará nos meus poemas, quase sempre, as palavras de todo dia, só que dispostas de uma forma que, aí sim, o leitor é obrigado a fazer a sua parte para poder tirar algum proveito. Você disse bem, ao falar das "quebras" de linha: fui um garoto cinéfilo, amo o cinema até hoje, e, como poeta, gosto demais de poder trabalhar com princípios como corte, montagem e outros. Isso e a ideia, apropriada do legado concreto, que me marcou muito, de exploração topológica da página, mais o uso consciente do ritmo e das alturas, creio que a comunicabilidade da minha poesia explica-se, de certo modo, por essa conjunção de fatores estéticos (sobre os extra-estéticos, não posso dizer nada...). Quero, agora, que me conte sobre seus planos como gestor cultural, agora à frente do Instituto Estadual do Livro. Como vê o papel da instituição? Quais serão, a seu ver, os principais desafios?
Silvestrin:
Sobre muita gente ainda não conhecer boa parte do que se publicou ou colocou em cartaz, uma vez a Olga Savary me pediu uns poemas, acho que uns haicais, para colocar numa antologia que ela estava organizando. Eu perguntei se teriam que ser inéditos ou poderiam já ter saído antes em livro. Ela me respondeu que tanto fazia porque todo poeta é inédito. Quanto ao Instituto Estadual do Livro, vamos trabalhar no acesso à leitura. Esse será o foco. Modernização das bibliotecas públicas (520), grupos de leitura para que a comunidade passe a perceber o acervo, circuito de autores em escolas, feiras e bibliotecas, formação de professores para qualificar o trabalho de leitura, oficinas com foco na formação literária, site-revista para colocar na roda em forma de resenhas e artigos o riquíssimo acervo dos planos de edições que foram feitos ao longo do tempo (são 600 publicações até agora), novo plano de edições para revelar novos autores, resgatar obras importantes, valorizar todos os gêneros, reformar a sede e fazer dela um ponto de encontro com a biblioteca especializada nos autores do RS, e, se conseguirmos, uma livraria com palco para shows e saraus e um café, fazer o Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura. E, pra encerrar este nosso agradável papo, li um texto lindo no teu blog
jaguadarte. Falas que te defines como um compositor, não só de canções, poemas, mas de si mesmo, usando um diploma que recebeste quando eras pequeno, um diploma de honra ao mérito pela tua composição, uma redação. Teu blog está há bastante tempo no ar. É visto e apreciado por muitos poetas. Como tem sido esse trabalho e a tua relação com a internet?
Aleixo:
A internet marca um segundo momento do meu trabalho. Vindo de outra época, tive que aprender a lidar com o mundo novo que a web representa e apresenta a cada instante. E o desafio de aprender sempre me fascinou. Costumo dizer, quanto ao meu blog, o jaguadarte, que sou funcionário dele. Atualmente escrevo lá menos do que gostaria, mas gosto demais quando consigo postar com certa regularidade. Sempre há algum retorno: ou em forma de comentários, ou por emails que um ou outro me envia. Quero voltar a postar resenhas e entrevistas, tenho planos de fazer um audiocast, e por aí vai. Creio que até o final do primeiro semestre quem me acompanha pela internet terá grandes surpresas. Quanto à internet em geral, para além do blog, sou um grande entusiasta. Sem deixar que isso afete minha relação com o "mundo real" (vá lá saber o que é real!), vivo conectado - o que é fundamentel tanto para a realização e a difusão do meu trabalho quanto para a pesquisa, o estudo e o contato com amigos, colaboradores etc.