
Esses são os nomes de dois personagens de uma peça: Todo-mundo e Ninguém. O primeiro se apresenta dizendo que vive a buscar dinheiro. O segundo busca a consciência. Dois outros personagens em cena comentam: todo mundo busca dinheiro e ninguém busca a consciência. Todo-mundo, a seguir, diz que gosta de ser elogiado, louvado. Já Ninguém prossegue dizendo que gosta de ser repreendido quando está errado. Os outros dois comentam: todo mundo gosta de ser bajulado e ninguém quer ser repreendido. Com esse jogo de linguagem, segue a peça inteira e vai nos revelando os embaraços e valores de todos nós. O autor da peça é o português Gil Vicente. Foi escrita anteontem: em 1532. Faz parte do Auto da Lusitânia. A eternidade do texto se dá, por um lado, por falar da psicologia humana. Somos, de certa forma, os mesmos em se tratando dos sentimentos. Buscamos o prazer e não a dor. A vida e não a morte. Mas a atualidade também é estética. Está no insight de linguagem que Gil Vicente teve. Ir brincando com as expressões todo mundo e ninguém e, com isso, revelando nossos desejos que nos igualam a todo mundo e a ninguém. E ninguém, no texto dele, vale também por todo mundo. Ou seja, ninguém quer ser repreendido é o mesmo que todo mundo não quer ser repreendido. O autor consegue a façanha de encontrar o igual no seu contrário. Não é por acaso que Gil Vicente, além de dramaturgo, é poeta.
(Texto publicado originalmente em Zero Hora.)

9 comentários:
Claríssimo, Ricardo, o teu texto. Bela lição de poesia. Abraços
Valeu, Héber!
Bacana, Ricardo! Eu não sabia nada sobre o Gil Vicente, era apenas um nome para mim.
Beijo,
Todo mundo devia ler o teu blog! (e o meu também!) Um beijo.
Oi, Fabiana. Obrigado pelas boas palavras. Li o teu blog:
"Toda noite
Repito o refrão
Parece mantra
Sem meditação."
Boa essa estrofe tua.
Abraço!
Bah mas que idéia boa essa tua. Gostei do blog. Vou tirar um tempo para ler os as tuas escolha.
Entalho velho! Legal o teu poema. Abraço, Silvana!
Oi Ricardo,
Que presente o seu blog. Conheci hoje e aprendi de vez o caminho. Alívio de ver gente falando de poesia com a intimidade que ela pede. Virei fã! abs
Legal, Carla! Volte sempre!
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